O Oriente Médio reacendeu um dos principais pontos de fragilidade do comércio global. Episódios envolvendo Irã, Israel e ativos estratégicos dos Estados Unidos trouxeram novamente ao centro do debate um risco conhecido — mas ainda subestimado: a vulnerabilidade das cadeias agroindustriais a choques geopolíticos.
Não se trata apenas de segurança internacional. Trata-se de fluxo de mercadorias, custo de insumos, previsibilidade logística e, em última instância, da margem do produtor rural a milhares de quilômetros de distância.
Porque, no mundo atual, uma crise no Golfo Pérsico não é regional. É sistêmica — e seus efeitos se propagam com velocidade crescente.
US$ 12,4 bilhões em jogo
Em 2025, o Brasil exportou US$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas para o Oriente Médio — o equivalente a 7,4% de tudo que o agro nacional vendeu ao mundo. O Irã, sozinho, absorveu US$ 2,9 bilhões. Não estamos falando de um mercado periférico, mas de um eixo relevante da demanda global.
Em cadeias específicas, essa dependência assume caráter crítico. O Oriente Médio respondeu por 29% das exportações brasileiras de carne de frango, totalizando 1,5 milhão de toneladas. No milho, a participação foi ainda mais expressiva: 31,5% do volume exportado, ou 12,9 milhões de toneladas.
O Irã destacou-se como principal comprador individual de milho brasileiro, com cerca de 9 milhões de toneladas — aproximadamente 22% das exportações totais dessa commodity.
Em determinados segmentos, portanto, o Oriente Médio não é apenas importante. É estrutural.
O efeito dominó que começa no mar
Conflitos na região não impactam apenas a demanda — afetam diretamente a logística global. O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo, enquanto o Bab el-Mandeb é peça-chave para o tráfego entre Ásia, Europa e parte da África.
Para o exportador brasileiro, isso se traduz em aumento imediato de fretes, elevação dos prêmios de seguro e redirecionamento de rotas marítimas. Navios passam a contornar o continente africano, adicionando semanas às operações e custos relevantes à cadeia logística.
Além disso, a região atua como importante ponto de abastecimento para embarcações que seguem para a Ásia. Quando esse sistema é pressionado, o impacto extrapola o Oriente Médio e se espalha por toda a malha global de transporte.
O resultado é claro: mais custo, mais incerteza e menor previsibilidade.
Fertilizantes: a vulnerabilidade estrutural
Se a logística é o sistema nervoso do comércio global, os fertilizantes são seu insumo vital — e o Brasil permanece altamente exposto.
O país importa mais de 85% dos fertilizantes que consome. Rotas associadas ao Oriente Médio concentram cerca de 45% da ureia global, 25% da amônia e volumes relevantes de DAP, MAP e enxofre.
Em 2025, 15,6% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil tiveram origem na região. Isoladamente, esse número pode parecer administrável. No entanto, somado à elevada concentração de fornecedores — com China, Rússia e Nigéria respondendo por mais de 70% do volume — o quadro revela uma vulnerabilidade estrutural.
Choques recentes ilustram essa fragilidade: aumentos de preços entre 10% e 12% em um único dia, acompanhados pela suspensão de negociações por parte de fornecedores. Em cenários de incerteza, o mercado deixa de precificar — e passa a reagir.
Petróleo, diesel e o prato do brasileiro
A energia representa o terceiro vetor de transmissão. Tensões no Oriente Médio historicamente pressionam os preços do petróleo, com impacto direto sobre o custo do diesel no Brasil.
Esse efeito é transversal. Desde operações mecanizadas no campo até o transporte rodoviário de grãos e a distribuição de alimentos, o encarecimento do combustível eleva custos ao longo de toda a cadeia.
Adicionalmente, fertilizantes nitrogenados dependem do gás natural como insumo básico, ampliando o efeito da volatilidade energética sobre os custos de produção agrícola.
O resultado é uma compressão simultânea de margens — tanto na produção quanto na logística — que tende a se propagar rapidamente por todo o sistema agroindustrial.
Resiliência não é imunidade
O agronegócio brasileiro construiu, ao longo das últimas décadas, uma notável capacidade de adaptação. Diversificou mercados, incorporou tecnologia e ampliou sua competitividade global.
Soube aproveitar oportunidades em momentos de ruptura, como na guerra comercial entre Estados Unidos e China ou nas disrupções provocadas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia, mas resiliência não significa invulnerabilidade.
A estrutura exportadora brasileira ainda é concentrada em poucos mercados e cadeias. A dependência da China já representava um ponto de atenção estratégico. Agora, soma-se a instabilidade no segundo eixo comercial relevante: o mundo árabe-muçulmano.
O Brasil é líder global na produção e exportação de carne halal — uma vantagem construída ao longo de anos de adequação a padrões rigorosos. Perder acesso a esse mercado, mesmo que temporariamente, implica abrir espaço para concorrentes e comprometer posicionamentos consolidados.
O sistema é eficiente — mas sensível a choques simultâneos.
O que está em jogo não é só dinheiro
O Brasil ocupa hoje uma posição singular no cenário internacional: a de uma potência média com alta relevância alimentar.
Mantém relações comerciais com múltiplos polos de poder — Estados Unidos, China, União Europeia, Oriente Médio e Rússia — o que historicamente garantiu flexibilidade.
No entanto, cenários de escalada geopolítica tendem a reduzir esse espaço. O agronegócio passa a desempenhar também um papel estratégico na política externa, deixando de ser apenas um setor econômico.
O caminho à frente
Não há solução simples para um problema que combina geopolítica, logística global, dependência de insumos e volatilidade energética. Mas há direções claras:
- Diversificação de mercados: reduzir concentração em destinos vulneráveis e acelerar a abertura de mercados na África, Sudeste Asiático e América Central.
- Segurança de insumos: transformar potencial doméstico — como reservas minerais e biotecnologia — em produção efetiva e escalável.
- Infraestrutura logística resiliente: ampliar rotas, fortalecer portos e diversificar modais, reduzindo dependência de corredores críticos.
- Diplomacia alimentar ativa: utilizar a posição do Brasil como fornecedor global de alimentos como ativo estratégico nas relações internacionais.
O ponto central não é se haverá disrupções relevantes. É que o sistema global já opera sob tensão recorrente e crescente. O agronegócio brasileiro continuará sendo competitivo. Mas competitividade, isoladamente, não garante estabilidade em um ambiente de fragmentação geopolítica.
A questão não é apenas capacidade de reação. É capacidade de antecipação.
Porque, em um mundo onde rotas podem ser interrompidas, insumos podem escassear e mercados podem fechar temporariamente, estratégia deixa de ser diferencial. Passa a ser condição de sobrevivência.
O agro não para.
Elaborado por Marco Ripoli, MSc., PhD.